Eu saí da casa dos meus pais há quase 14 anos. Da casa, da cidade, do estado. Parece uma vida inteira… e é. Carrego comigo as escolhas (e as consequências delas) que fiz aos vinte e poucos, quando a coragem ainda era maior que o medo e eu coloquei meia dúzia de coisas em umas malas e fui encontrar o que eu nem sabia direito que procurava, mas eu sabia que não encontraria onde eu estava. Mais que buscar realizar sonhos, eu fui buscar sonhos pra sonhar. 

Os anos passaram, vivi amores, morei em um punhado de casa, conheci pessoas, mudei de empregos, me encontrei em outra profissão. Por um tempo, ia todo mês (às vezes mais de uma vez) pra casa, pra recarregar as energias e pedir um colo. É, eu saía de casa pra ir pra casa e depois voltar pra casa. Fiz uma casa minha, mas nunca deixei de chamar de casa o lugar de onde saí. Ou melhor, as pessoas de quem saí. Aquelas pessoas são minha casa. 

Casei, tive um filho, tive uma filha, comprei uma casa. Abri uma empresa, abri outra, fechei outra empresa. Sinto que fiz o caminho exato que deveria ter feito, mas hoje me pego imaginando o improvável… como seria minha vida hoje se meus pais morassem logo ali? Fico imaginando o que perdi, o que poderia ter tido, o que poderia ter. Fico me perguntando sobre todas as pequenas coisas que a distância rouba da gente.

Será que meus dias seriam mais leves? Será que seria no endereço deles o meu porto seguro? Pra onde eu fugiria vez ou outra quando os dias roubasse minha energia?

Como seria poder aparecer numa quarta-feira qualquer pra almoçar na casa dos meus pais e comentar as notícias enquanto raspamos pratos e discordamos em pontos de vista? Como seria aos domingos encontrar meu pai no parque pra uma caminhada e uma água de coco? E se meus filhos pudessem conviver com os avós depois da escola? E se às vezes minha mãe chegasse pra dizer “vai jantar com teu marido” e ficasse na sala com as crianças fazendo arte? 

Como seria poder chegar no fim de um dia difícil e pedir um colo? Como seria poder ficar doente? Poder baixar a guarda, não precisar ser forte, não precisar dar conta, poder ser filha a qualquer momento. 

Queria pedir o feijão da minha mãe pronto na mesa quando batesse a vontade e não me contentar em pedir a receita na tentativa de reproduzir o prato que é bom, sim, mas é especial pelo afeto que carrega. 

Ir a shows juntos, viajar, dividir refeições, jogar toneladas de conversa fora, assistir filmes. Queria poder resetar o roteador, instalar a televisão, configurar o computador, fazer backup do celular sentada no sofá deles e não pendurada no telefone. 

Como seria minha maternidade se eu tivesse minha mãe por perto? Como seriam minhas angústias se tivesse o ombro do meu pai a algumas quadras de casa? 

Aquele “passa aqui rapidinho” que não existe quando quilômetros separam me fazem falta. 

Penso em todos os aniversários que já perdemos uns dos outros e todos que eles poderiam chegar mais cedo pra ajudar a arrumar a mesa. 

Nas noites em que eu poderia pedir: “Mãe, fica com eles um pouquinho? Eu só preciso respirar.”

E me pergunto quantas versões de mim eu deixei de viver por não ter a presença deles na rotina, mas sei que algumas versões de mim que gosto e me orgulho também nasceram justamente dessa falta.

A vida me levou pra longe no começo da minha vida adulta, com muito mais perguntas que respostas. Muito mais responsabilidades do que eu achava que conseguia assumir. Arriscando muito mais do que talvez eu estivesse preparada. É fácil reconhecer o tanto que cresci por causa da distância, a mulher que eu sou hoje veio desse caminho que tive que abrir sem a ajuda próxima das mãos dos meus pais. 

A falta acabou virando força. A saudade que eu senti e sinto, viraram minhas raizes. 

Não mudaria meu caminho, mas imaginar meus pais por perto mexe com uma parte de mim que ainda continua uma menina. Aquela que só queria saber que, se tudo desse errado, dava pra bater na porta deles.

Mas a vida adulta é isso aí, né? Conviver com nossas conquistas e nossas faltas ao mesmo tempo. Com nossas versões adulta e criança, com nossas saudades e com as consequências dos caminhos que escolhemos.

Uma resposta para “O que a distância rouba da gente.”.

  1. Avatar de Mallu Gonçalves

    Estou em SP há cinco anos, Hari, e me identifico muito. Sair da casa dos meus pais no começo dos meus vinte anos mudou tudo. Hoje, casada, com minha casa e muito apaixonada pela minha vida, vira e mexe acordo sentindo uma saudade de ficar horas conversando na mesa com meus pais, rindo de bobeira e vivendo com o caos que sempre foi a casa deles rs. O barulho, a agitação, a correria… É um mix de culpa por estar longe e orgulho de estar construindo uma vida “só minha”. Mas sempre pensando: como poderia ser se eles estivessem pertinho? Como vai ser quando eu tiver um filho e estiver longe deles? O que eu e minha criança perderemos com a distância? E o que ganharemos também?Enfim, já dizia Rafinha, filho do Jô: escolher é perder sempre. A vida adulta é um cemitério de sonhos, mas a gente aprende a se encontrar.

Deixar mensagem para Mallu Gonçalves Cancelar resposta

Eu sou Hariana Meinke

Há mais de 20 anos postando aleatoriedades na internet pelo simples prazer em compartilhar, desde muito antes de saber que poderia ser um trabalho. Agora é, mas o que me mantém aqui de verdade é a alegria em dividir.

Let’s connect