Ser bonito não é físico, mas estão querendo nos fazer acreditar que é. Sejamos a resistência. Eu ando em uma das minhas 94302 crises virtuais que já tive nessa vida. Existe um motivo: eu odeio a cultura do superficial que as redes sociais vendem e eu acabo, inevitavelmente, fazendo parte disso. Eu sinto que às vezes eu deveria usar mais o espaço que tenho, por mínimo que seja, pra encorajar as pessoas a se questionarem. Eu já estou me aproximando dos 30 anos, então se fizerem as contas, vão ver que minha adolescência foi antes dessa alienação virtual. Bom, não quero ficar com discurso saudosista de “na minha época…”, vim aqui falar sobre como as pessoas estão equivocadamente condicionando a auto-estima diretamente a questões estéticas. Pra pessoas mais novas que se criaram nesse mundo virtual e visual, eu devo estar soando louca.
Vamos começar esclarecendo umas coisas: você não precisa de maquiagem, você não precisa da roupa que todas as pessoas estão usando, você não precisa do corte da moda, você não precisa ser escrava da escova, você não precisa ter o cabelo liso, você não precisa ter uma pele perfeita, você não precisa vestir 36, você não precisa ter as fotos mais bonitas da internet, você não precisa do filtro de coroa de flor no snapchat pra ser bonita. Tem gente ficando milionária na internet em cima da sua frustração, não permita que te usem dessa forma.

Estão aí todo dia dizendo que você precisa conhecer o método de congelar gordura, a drenagem linfática, a escova de diamante, o alongamento de cílios, o megahair, o exercício INCRÍVEL pra deixar a bunda dura em apenas 4 semanas, a unha de gel, o truque pra esconder as sardas, estão aí dizendo que você não pode deixar de ter a nova coleção daquela marca legalzona que todo mundo ama… São incontáveis aplicativos pra deixar a pele lisa, o olho grande, a boca rosada… São matérias em portais com dicas imperdíveis pra tirar a selfie perfeita e a gente não precisa de nada disso. Por que tanta gente está acreditando que sim? Quando é que as pessoas perderam a capacidade de questionar?
Ser bonito é ser de verdade, ser bonito é sair na hora quando alguém está na porta da sua casa e diz “desce” sem se preocupar se o cabelo tá no lugar, se a olheira tá grande demais. Cabelo no lugar é coisa de gente que não se diverte… Correr bagunça o cabelo, tomar banho de chuva também. Andar com a cabeça pra fora do carro despenteia, transar despenteia, piscina, cloro, mar e sal deixam a gente um leão quando o vento bate. E daí? Quem perde tempo demais preocupado com o cabelo, perde uma boa parte da diversão. Ser bonito é ter riso frouxo e capacidade de se divertir, a beleza vem de dentro pra fora quando a gente alimenta a alma.
As olheiras? É, gente, não é todo mundo que tem o privilégio de dormir 8 horas de sono. E nem é todo mundo também que tem o privilégio de TER sono. A insônia tá aí, nossa cabeça anda com coisas demais pra pensar, o escuro ao redor dos olhos na manhã seguinte nos entrega. E daí? Bonito é assumir que é humano, que teve uma noite ruim. Você pode, sim, querer dar uma disfarçada com um corretivo, mas você não precisa disso…
Você sai de salto, passa a noite reclamando, mal consegue andar, no outro dia está cheia de calos e de arrependimentos. Por quê? Se você não gosta e não se sente bem com uma determinada roupa ou sapato, é simples… Não use. “Ah, mas eu sou baixinha…” e daí? Quem disse que você precisa ser alta? Eu já fui em muita balada nessa vida e nenhuma vez fui de salto, usei tênis em todos os lugares que pude e nos lugares que não era permitido entrar de tênis, sabe o que eu fiz? Eu não fui (com exceção de sofridas formaturas e casamentos). Acho inconcebível que a gente se violente pra ser aceito em um lugar que exige coisas que não são naturais nossas. Isso serve pra balada, pro grupo de amigos e, acreditem, pra internet!
Gente bonita é gente que passa a noite jogando conversa fora, é gente que sabe conversar, é gente com argumento, gente com conhecimento, gente que olha no olho. Gente bonita te encanta e você nem sabe o porquê. Gente bonita ouve a música que quer, dança sem se constranger se aquele movimento é sexy, gente bonita lê, gente bonita anda na rua olhando pro horizonte e com o peito estufado de quem sabe que pode não ter o rosto mais harmonioso ou o cabelo mais sedoso nem o corpo mais esbelto, mas sabe que ninguém tem o que ela tem e ninguém é o que ela é. Bom, lembra desse texto aqui? É isso. O que te faz bonito é o que ninguém tira de você.
O que vai te preencher a alma? Impressionar alguém pela sua maquiagem e pelo seu visual e ser mais uma entre tantas pessoas pré-fabricadas ou marcar a vida de alguém e saber que o que te aproximou de alguém foi o que você tinha pra falar e acrescentar?
Tem gente que só quer ver visual? Gente que valoriza só a carcaça? Tem sim, muita gente! Mas são essas pessoas que você quer ter por perto? Eu passei a minha vida inteira usando calça, tênis e camiseta. Fui uma adolescente estranha, gordinha, de all-star/vans e camiseta de banda. Vivi em uma cidade de mulheres loiras, esbeltas, siliconadas, indiscutivelmente esculturais e eu nunca me senti inferior a elas nem por um segundo. A razão é só uma: eu posso me achar, com frequência, a pessoa menos fisicamente atraente dos lugares que vou, mas gosto tanto das coisas que alimento minha alma (músicas, filmes, livros, etc…) que tenho certeza que sou uma pessoa interessante. E se alguém não quiser me conhecer por causa de como eu me visto ou por causa da minha aparência física, essa pessoa não merece conhecer o que eu tenho a oferecer. E quando digo que não me sinto fisicamente atraente, não é uma vitimização, porque não vejo problema nenhum em não ser o holofote visual de nenhum lugar, inclusive prefiro e gosto. Bom, minha monocromia visual já indica que chamar atenção não é meu forte.

Não acreditem que ser bonito é físico, busquem ser pessoas interessantes e não apenas fisicamente atraentes. No fim, o que conta é o efeito que você causou na a cabeça e no coração das pessoas e não nos olhos.
Parece clichê, mas a verdade é que a gente precisa se amar antes de tudo e o amor próprio não está relacionado com o que vemos no espelho. A gente tem que se achar uma pessoa legal, não tem problema nenhum em admitir “eu sou massa!” pra si mesmo. Parece que a gente se sente culpado quando reconhece nossas qualidades, parece errado, parece falta de humildade. Não é. A gente precisa se conhecer se valorizar pelo que a gente é. E ser é uma questão interna. Resista ao que tentam nos vender todos os dias. Não permita que a bunda ou o cabelo de alguém façam com que você se sinta inferior. Combinado? Ser bonito vai além de tudo que a gente pode ver.


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