Pedro parou em 1,65m enquanto seus amigos chegavam a 1,80m, resolveu entrar em uma academia de uma dessas lutas que a gente vê na TV, foi o jeito de recuperar sua auto-estima. Para os outros, diz apenas que foi porque gosta de lutar. Joana, que hoje tem 22, desde os 18 fala que acha uma besteira dirigir, acha que é preciso contribuir para um mundo sustentável, nunca admitiu que é o trauma daquele acidente aos treze que a impede de procurar uma auto-escola. Marcelo tem medo de altura, Priscila tem medo de avião, Felipe treme ao ver palhaços e Vanessa fica histérica diante de lagartixas. Ainda que digam que avião é o meio de transporte mais seguro do mundo, que palhaços se desmancham com água e sabão e que lagartixas são totalmente inofensivas, nada muda pra Priscila, Felipe e Vanessa. Fabíola prefere transar no escuro – odeia aquela cicatriz na barriga, Janaína não mostra suas pernas há mais de dez anos, Paula só tira fotos do seu lado esquerdo. Renato não fica a vontade com um cachorro por perto, Leandro não consegue entrar no mar, Armando nunca tirou a camiseta na praia. Eu odeio lugares cheios demais, tenho a impressão de ouvir todas as conversas ao mesmo tempo e isso me deixa absolutamente maluca! Lúcia sempre gagueja quando tem mais de duas pessoas na conversa, Mariana vive com a cara fechada – mas é que tem vergonha de sua risada com som de porco, Rui também não sorri, mas é por causa dos dentes tortos que ainda não conseguiu arrumar, já a carranca da Laís é apenas vergonha do aparelho. Ninguém chama mais João pra sair, ele nunca vai mesmo… mas o que ninguém sabe é que há um ano está com uma síndrome do pânico. Fernanda entra em uma festa procurando a saída de emergência, Luciana só senta no lado direito do ônibus – os acidentes geralmente têm o lado esquerdo atingido. Medos, traumas, paranoias… Quem não as tem? Natália é magra demais, Débora engordou muito por causa de um coração partido e nunca mais emagreceu. Raquel não consegue falar em público, Diana fica cheia de manchas vermelhas quando precisa conversar com o chefe. Cada pessoa é um conjunto de acontecimentos e de experiências e nenhum conjunto é igual a outro. E é simplesmente por esse motivo que ninguém – ninguém mesmo – tem o direito de julgar o que acontece dentro dos outros. O que é fácil pra você, pode ser impossível pra mim. O que é besteira pra mim, pode ser um bicho de sete cabeças pra você. Ninguém tem o direito de piorar o trauma de ninguém, ninguém tem o direito de ser o trauma de ninguém… Se alguém travar diante de uma situação e você estiver por perto, dê a mão e procure entender seus motivos. Dê a mão e prometa não soltar, se alguém um dia confiar a você um medo, não deboche, não faça pouco caso – confesse um medo seu também e ofereça-se a ser companhia para enfrentar os bichos dessa vida, juntem suas fraquezas e façam disso uma fortaleza. Só a gente sabe o tamanho do problema que a gente tem e a única coisa que resta aos outros é somar ou sumir.





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